sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Koe no Katachi - Crítica

Um silêncio de máscaras

Animações japonesas raramente decepcionam, tendo em sua história várias obras-primas.  Diferente das americanas, elas tratam de temas mais pesados sem eufemismos, além de dosarem seu tom cômico em quantidades menores.

O filme acompanha Ishida Shouya em dois momentos: um primeiro no ensino fundamental, que introduz a história, e o segundo dois anos depois, já no ensino médio. E também acompanha Nishimiya Shoko, uma garota com problemas de audição e que por conta disso, tem autoestima baixa e dificuldades para se enturmar. 

Sem que haja motivos aparentes, Ishida começa a praticar bullying com Nishimiya, o que acaba gerando consequências negativas para ambas as partes. Algumas cenas me causaram grande desconforto, em contraste com a aparente doçura que Nishimiya lida com a situação, que se converte em raiva em um dado segmento. 

Essa é uma ação que gera mudanças drásticas na vida de Ishida, tanto no ciclo familiar quanto escolar. Ele passa então a ser evitado pelos outros colegas, se transforma em um garoto cabisbaixo, que não encara nem ouve as pessoas em sua volta, isolado e alheio a tudo que o cerca. Por isso, parte em procura da garota a quem causou tanto mal dois anos atrás para conseguir se redimir do seu passado. Assim, a figura do jovem vai aos poucos sendo compreendida, e em vez de raiva, causa piedade e depois empatia.

É preciso ressaltar o bom controle de tempo que o filme tem, na medida em que insere acontecimentos novos de um modo que parece brusco, até tratá-lo depois, ou como avança e depois estica sua obra. O importante no filme não está no final, mas no caminho. Também há um bom uso de personagens, que entram na trama, somem e reaparecem no momento certo. Só há um personagem que parece que vai ganhar maior destaque na trama mas não ganha, fazendo com que sua aparição soe como sem motivo.

Há vários temas tratados aqui, suicídio, bullying, isolamento social, perda, todos com seu momento em alguma parte, embora alguns se atropelem. Há uma personagem que carrega uma raiva injustificável, assim como a extrema doçura de Nishimiya, quase não humana. Outro ponto negativo é o exagero para demonstrar quaisquer sentimentos, comum nas animações japonesas.

Na relação Nishimiya e Ishida, a evolução para a aproximação deles é orgânica: a tensão amorosa, a ingenuidade, a timidez exagerada, tudo contribui. É notável a amargura que ambos carregam, e como buscam apoio um no outro para superá-la e o empenho mútuo que o fazem. Porém, era grande meu desejo de que certas tomadas de decisões fossem à tela, o que seria bem satisfatório.

Essa é uma obra relevante, tênue no tratamento de seus temas. Embora nem tudo seja aprofundado como poderia, é um bom estudo de personagens, tem boas músicas e de quebra traz uma cena, perto do final, que me fez ir às lágrimas. 

Nota: 8.9

  • Direção: Naoko Yamada
  • Roteiro: Reiko Yoshida (roteiro), Yoshitoki Oima (mangá)
  • Gênero: Animação / Drama / Romance
  • Origem: Japão
  • Duração: 129 minutos
  • Ano de lançamento: 2016




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