sábado, 9 de dezembro de 2017

Eu estava justamente pensando em você (2014): Análise

A física e a química a serviço da sétima arte

Contém spoilers

Esse é um filme estadunidense de 2014 com 90 minutos de duração, com raízes no drama, na comédia e no romance, escrito e dirigido por Sam Esmail (diretor da série Mr. Robot). Conta a história de Kimberly (Emmy Rossum) e Dell (Justin Long), que se conhecem numa chuva de meteoros, passando por vários momentos do relacionamento dos dois, entre términos e recomeços.  A trama não nos é apresentada em ordem cronológica, com uma montagem ideológica: perpassa por vários momentos do relacionamento, entrecortando os planos.  Nesse ponto, se parece com “500 Dias Com Ela”, mas diferente desse, aqui não há qualquer alusão à que ponto do relacionamento estamos,  senão algumas pistas deixadas pelos diálogos das personagens.  Nem mesmo a caracterização dos atores ajuda nesse aspecto, artifícios como barba e cicatrizes, comumente usados para demarcar tempo, não estão aqui. Há um momento em que os dois se reencontram e ela cita o casamento de uma amiga como a última vez que se viram, quando teve uma grande discussão entre eles, ainda não mostrada no filme. Em outro momento ele fala sobre esse reencontro e quando desceram em uma cidade diferente do planejado, antes do trem descarrilhar, algo também não mostrado ainda, e assim em vários outros momentos. O único momento certo no tempo é quando se conheceram.  Ele fica extasiado com a beleza dela e quase é atropelado por um carro, quando ela então o salva de ser atingido por ele. Nesse momento há uma alusão ao filme “O Sexto Sentido” e como ele passa a trama inteira sem saber que está morto, como se houvesse a possibilidade de que Dell tivesse morrido naquele momento e tudo que se seguisse fosse fruto da sua mente. Também é desse ponto que vem outro ponto importante para a trama: Dell diz que todo relacionamento, que dure muito ou pouco tempo, precisa de uma mentira. A dele seria quando diz não ter visto “O Sexto Sentido” , o que ele desmente ainda no mesmo dia. Ela tenta contar uma em seguida, dizendo que foi estuprada na escola, mas ele logo a desmascara e diz que para cair na mentira precisa que ela conte num momento que ele não espere. Assim, no final, numa cena em que Kimberly e Dell estão separados e se revém após um longo tempo, ele conclui que ela está infeliz no seu relacionamento com Jack por ter tentado esconder dele o fato de estar noiva, se vestido de forma sensual para impressioná-lo, estar com olheiras de quem não dorme há muito tempo (e segundo ele, ela seria capaz de dormir durante uma guerra) e por estar ouvindo Roxette (algo que fez pouco antes do último término deles). Mas Kim diz que só queria mostrar a ele como foi importante namorá-lo para o seu amadurecimento, além estar grávida do seu noivo, a quem diz amar muito, refutando o argumento do ex de que estariam para se separar. Mas há poucos minutos do final do filme, ela fala o nome de Dell como se fosse lhe contar algo, talvez que estivesse mentindo, mas ele a interrompe e diz precisar pensar por um momento.  Vemos então os protagonistas parados, um em cada canto da tela, e dois sóis no céu, até que ele se aproxima para beijá-la e então o filme acaba, sem mostrar o que se sucede.  O interessante nesse ponto é que remete a um momento anterior da obra, quando Kim diz não gostar muito do tempo. Nessa cena, ela diz que preferia congelá-lo em algumas situações, ou então acabar com ele definitivamente.  “Kim: ... - Olha, é por isso que eu odeio o tempo... - Eu gostaria de poder pará-lo ou algo do tipo. Ou, pelo menos, apenas pausá-lo quando necessário, como agora. Ou melhor ainda, se livrar completamente dele. Dell:  - Você quer se livrar do tempo? Como você faria isso? Kim: - Você sabe que existe arte baseada em tempo? Filmes, músicas, teatro, tudo é arte baseada no tempo. Há um começo, um meio e um fim. Você tem que acompanhar do início até o fim. Você está sujeito ao cronograma. Preso a essa experiência. Mas daí existem essas obras de arte. Sem começo, sem meio, sem fim. Você vê o que quer ver e quando quer ver.  Sem restrições. Ela tá sempre lá. Dell: - Tudo bem, então você quer que a vida seja um quadro? Ótimo.” Um quadro. E é justamente o que a cena se parece. Isso também parece explicar em parte a narrativa não-linear do diretor. Nas obras de arte, incluindo filmes, é onde o tempo pode ser analisado de uma forma diferente da vida real, podendo ir e vir em ações e sequências separadas por anos, revelando e ocultando fatos, fazendo uso do mistério, de perspectivas e ideias que não funcionariam numa simples transcrição da realidade, em obras atemporais, que sempre poderão ser assistidas pelo público e produzir sentido nele, como uma parte dessa engrenagem, que só existe enquanto filme. Outra fala importante do filme é quando Kim diz estar lendo um livro, sobre um médico que ajuda uma paciente grávida de Hitler (o que muda consideravelmente o peso e o rumo da história), e quando Dell diz que ela já leu o livro por saber o final, ela responde que às vezes o importante não é o final. O que deve contar então é a experiência. Outro ponto importante está no começo do filme,  como uma espécie de introdução ao conto: “Os seguintes eventos ocorreram ao longo de seis anos (alguns em um universos paralelo)”.  Assim, além de não poder datar os acontecimentos do filme, também não se sabe se fazem parte de um mesmo universo ou são algumas variações. Esses pensamentos sobre universo, além de estarem no título do filme (o título original é “Comets”, a palavra que Dell mais gosta segundo ele, o título em português faz alusão a uma fala de Kim quando se reencontram após muito tempo, antes da viagem de trem), também está na edição: o filme não apenas corta de um  plano para outro, mas sobrepõe as imagens, às vezes com uma espécie de chuvisco, o que torna a cena surreal de certo modo e  deixa o espectador confuso.  Há também um bom trabalho na fotografia, com uso de cores claramente não naturais mas de forma intencional, ora muito claras ora muito vívidas, causando impacto e um ar de mistério no público. Há também um monólogo perto do final, onde Dell diz: “Me sinto como se eu estivesse no mundo errado, porque não pertenço há um mundo em que não terminamos juntos. Existem universos paralelos por aí onde isso não aconteceu. Onde eu estava com você e você estava comigo. E seja qual for o universo, é esse em que meu coração vive.”. Um pouco antes disso, Dell também revela que sonhou com ela na noite passada, revivendo várias partes do relacionamento deles (cenas que parecem coincidir com o filme), além de ter sonhado com aquele reencontro que até então não havia acontecido, repetindo as mesmas falas de lá. Ela então diz que ele ainda pode estar sonhando. No sonho ele diz que ia beijá-la mas antes dos lábios se tocarem ele acorda (justamente o corte final do filme), e embora tenha tentado voltar a sonhar outras vezes, acabou não conseguindo. Assim, há a possibilidade de tudo não passar de um sonho quando na verdade não houve esse reencontro, dele ter morrido atropelado por aquele carro quando a viu pela primeira vez, dela estar mentindo sobre a gravidez e aquele ser o universo paralelo em que terminam juntos, dela não estar mentindo e de fato amar seu noivo de quem espera um filho. Interessante também que, embora no sonho acontecesse tudo da mesma forma, ele parece surpreso ao saber da gravidez.  O filme se utiliza bastante de cortes bruscos, até no meio de diálogos, retornando a eles ou não. Também não mostra um grande mosaico do relacionamento dos protagonistas, focando apenas em momentos-chave dessa (des)união.  Há uma grande diferença entre os protagonistas: ele é mais ´cético, não acredita no amor, sempre está preocupado com o futuro, é narcisista e se acha o dono da verdade. Ela é romântica, quer casar, ter filhos, gosta de viver o momento, bastante sensível. É uma história bem peculiar (o primeiro beijo vem após ele dizer “onde está a porra do meu dinheiro”, por exemplo), as situações esquisitas de algum jeito charmoso, o ritmo embora pouco fluído não impede a imersão de quem assiste, há um carisma peculiar nos personagens, bons diálogos, mudanças de pensamento, além de pontas soltas que se emaranham. E para a confusão narrativa, há recompensa para quem assiste com boa vontade.

PS: Cadê a merda do dinheiro?

Nota: 10.0

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terça-feira, 14 de novembro de 2017

Corra, Lola, Corra (1998): Crítica

O namorado de Lola lhe liga e diz ter esquecido 100 mil em alguma unidade monetária no trem, e agora um gangster que o mandou para o trabalho irá lhe matar em vinte minutos por conta disso. Começa então uma jornada frenética de Lola na busca para chegar até seu namorado  e ainda arrumar o dinheiro nesse tempo. É uma obra corajosa, desde as primeiras citações e falas, o monólogo introdutório, os créditos, tudo busca se diferenciar.  Algumas ideias parecem boas, outras são falhas e desmentidas até mesmo durante o filme.

O espectador se vê um pouco perdido em meio à tantos ângulos e cortes bruscos, é algo com que vai se acostumando durante a produção. Nem Lola nem seu namorado parecem muito espertos pelas escolhas que tomam, e não há vínculo emocional com eles, por não se saber nada nem de um nem de outro. As sub-histórias que são apresentadas no filme, não convencem, soam apenas pretensiosas.Os vinte minutos parecem ser bem mais, o elemento de volta no tempo também está mal usado, e a parte final, que deveria conter a maior energia, é quando o filme perde a força. Embora enjoe um pouco na sua estrutura, conta com alguns bons diálogos e algumas camadas em seus personagens. Há uma extrema facilitação narrativa para chegar ao ponto que se deseja. Fecha ameno. 

Nota: 5.8

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Sem Segurança Nenhuma (2012): Crítica

Três jornalistas viajam para uma pequena cidade atrás de um homem que anunciou no jornal estar procurando uma companhia para viajar no tempo. Deles, um quer rever uma antiga namorada, outro é muito novo e viveu poucas experiências aventureiras. Apenas Darius (Aubrey Plaza) parece realmente interessada na matéria. Sua personagem tem um motivo especial para isso, e desde o primeiro ato, é nítido seu desajuste frente ao mundo.

Já Kenneth (Mark Duplass), quem diz poder viajar no tempo, é bastante medroso e paranoico, fechado e peculiar. Ele acredita que há pessoas o seguindo atrás da máquina do tempo, além de submeter-se a um treinamento bem estranho para a viagem. Por algum motivo, Darius se sente cativada. O filme faz um bom tratamento para que a plateia descubra as coisas aos poucos, assim como faz para que fique com a pulga atrás da orelha sobre a máquina. As três histórias contadas aqui poderiam ter ápices mais altos, mas fazem um bom trabalho de sustentação até o ato final. Todas as dificuldades da narrativa se desenvolvem com rapidez, mas dentro do que se propõe, o filme é justo consigo. É um trabalho de sugestões.

Nota: 8.5

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As Patricinhas de Beverly Hills (1995): Crítica

Cher é uma menina não muito diferente das demais, que gosta de shopping, de persuadir os professores para aumentar sua nota, de chamar a atenção de todos que cruzam seu caminho. E embora mantenha a pose, a garota frágil que luta pra ser mais do que rótulos é fácil de ser percebida. Na história, há vários focos, como se fossem pequenas crônicas dentro da obra.

Na parte de escola, falta um pouco de vida, ou mais realidade nos personagens. Na parte familiar e amorosa, não é muito diferente. O filme até se sai bem nos vários caminhos que percorre mas falta um mergulho, que diferencie mais a obra. Mas se as amizades ou a popularidade de Cher não convencem tanto, ainda assim, sua personagem é muito carismática e toda sua solidariedade e sua busca por encontrar-se parece muito real, sendo impossível não torcer por ela.  É um filme encantador e que marcou uma geração.

Nota: 7.4

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segunda-feira, 13 de novembro de 2017

A Ressaca (2010): Crítica

Quando um homem tenta suicídio, seus dois maiores amigos e o sobrinho de um deles, decidem o levar para um resort de esqui, onde passaram grandes dias em décadas passadas. Depois de encontrarem o lugar bastante modificado,  os amigos acabam voltando no tempo através de uma banheira de hidromassagem do local. Há a vontade de fazer com que suas vidas deem certo, já que um tentou se matar, o outro descobriu que foi traído pela mulher e o outro se separou recentemente, além do sobrinho que vive em jogos online e pouco sai de casa. 

Se trata de uma comédia, então quase nada se leva a sério. Depois da premissa criada em cima do resort, o que se segue desaponta um pouco, além de um trato entre eles em não modificar o passado, o que também impede algumas boas situações. Há um romance que poderia ser mais bem trabalhado, assim como a amizade entre eles. O ponto forte da história fica na ideia central da trama, e também as boas piadas espalhadas por sua produção. O final acaba sendo tão improvável que frustra um pouco também.

Nota: 8.0

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Looper- Assassinos do Futuro (2012): Crítica

Joe é um assassino de pessoas enviadas do futuro, já que matá-las no passado não deixaria pistas. Quando precisa matar a si mesmo, acaba se deixando escapar, e suas duas versões precisam lutar para continuarem vivas. Joe é um anti-herói, com poucas qualidades e um grande apreço pelo dinheiro, e que mesmo sabendo se tratar de si mesmo, não poupa seus esforços para matar seu "eu futuro", não desistindo da ideia nem quando o Joe mais velho conta suas motivações para não aceitar a morte.

Há boas ideias aqui e uma boa construção de mundo, nas armas e no salário de cada assassino, entre outras coisas. A narração bem pontual ajuda a entender a trama mas sem jogar tudo para o espectador. A ação também é bem dosada para só ser usada quando necessária. Também há uma boa maquiagem em Joseph Gordon-Levitt para que fique parecido com Bruce Willis, sua versão mais velha, o que garante um tom mais realista ao filme. Também há bons personagens secundários que abrilhantam as cenas, assim como as cenas de ação e fuga. O filme conta com alguns furos na sua estrutura mas diverte, é bem conduzido, escrito, e vai além daquilo que a sinopse sugere.

Nota: 9.3

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Donnie Darko (2001): Crítica

Já havia visto esse filme há algum tempo, mas resolvi revê-lo por lembrar de muitas poucas coisas na história. Escrito e dirigido por Richard Kelly, esse grande cult dos anos 2000 mostra um garoto que tem visões de um coelho gigante que lhe dá a data do fim do mundo, que será em breve. Além disso, o coelho o estimula a realizar alguns atos de vandalismo. 

Primeiro, esse é um filme com um forte elenco. Jake Gylenhaal, Patrick Swayze, Drew Barrymore, Seth Rogen... Sobre Donnie, além de ser um sujeito com problemas na família, na escola, e poucos amigos, não é muito interessante. Aliás, nem o coelho que ele vê, pois acaba tendo poucos momentos em cena, nem o começo de romance que é apresentado. Há boas ideias aqui, como a turbina que cai no quarto de Donnie, a leitura e a interpretação dos atos vândalos, a velha da estrada, buracos de minhoca, há muitos temas aqui, mas poucos com um bom tratamento.

O filme é confuso, não por ser muito "cabeça", mas por falhas de transmissão da mensagem. Conta com cenas memoráveis, uma boa ruptura com o padrão, pouca apelação, valorização dos detalhes, bons estudos de personagens e sobre a vida. Há elementos que não se justificam, e todo o clímax causado com a ideia de fim do mundo decepciona também. Mas é um filme que faz pensar, acima da média, e que se não agrada, choca quem o assiste, o que é bom.

Nota: 6.8

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